7 da tarde e ainda não lavei os dentes

Não é fácil voltar lá, mas é preciso agradecer (sempre!)

Duas semanas depois de nascer, a Maria Leonor teve uma bronquiolite e ficou internada durante 17 dias, na Unidade de Pneumologia Pediátrica do Hospital de Santa Maria.

Faz agora um ano que saímos do hospital. Lembro-me de me sentir extremamente vulnerável e de só querer ir para casa, para estarmos todos juntos, na confusão boa da família outra vez.

Foram duas semanas difíceis. Ela era muito pequenina, eu fiquei lá o tempo todo com ela. Saía apenas para comer e dormia num cadeirão. As irmãs estavam ou com o pai ou com os avós. Eu sentia que estava sempre em falta: quando estava com as maiores estava a falhar com a bebé; quando estava com a bebé, sentia que estava a falhar com as mais crescidas – tive tantas saudades delas nesses dias!

E, naturalmente, não estava preparada para passar os primeiros dias de vida da Maria Leonor a olhar para ela, tão pequenina, cheia de tubos e fios, sem conseguir respirar sozinha. A ser aspirada três vezes por dia, a chorar cada vez que tinha de mudar de cateter ou de tomar o antibiótico. Não estava preparada para passar os primeiros dias de vida dela num quarto de hospital – ninguém está. E esta é a razão que me levou a escrever este texto. Porque há pais que não passam apenas duas semanas assim – mas meses e até mesmo anos. E porque há profissionais de saúde que tornam isto tudo menos pesado e que vão dando esperança em doses homeopáticas quando percebem que começamos outra vez a descer no ânimo ou na força.

Volto atrás um ano porque não me esqueço de que, no dia em que a Maria Leonor fez um mês, a animadora e as enfermeiras enfeitaram o quarto com balões, penduraram um poster na cama e fizeram uma coroa de princesa para ela. Porque não me esqueço de que no dia da final do Campeonato da Europa – quando Portugal se sagrou campeão – trouxeram acessórios para todas as crianças e, por umas horas, quase que nos esquecemos de que estávamos num hospital.

As enfermeiras e as médicas desta unidade ganharam o meu agradecimento e o meu respeito para a vida. Não têm as melhores condições para trabalhar – e trabalham tanto, caramba! -mas sempre que entravam no quarto tinham um sorriso para partilhar connosco, um mimo para ela, uma palavra atenciosa para mim.

Espero que a vida as trate mesmo bem!

6 comentários em “Não é fácil voltar lá, mas é preciso agradecer (sempre!)

  1. Liliana Almeida

    Conheço exatamente esse sentimento de abandono com a mais velha, enquanto o mais novo cm 1 mês também ficou internado com uma bronquiolite. E é um enorme respeito, admiração e gratidão o que sinto pelos médicos, enfermeiros e auxiliares do Hospital Fernando da Fonseca dos Cuidados Intensivos Pediátricos. Eles são enormes com tão poucos recursos. E a visita dos Drs Palhaços que com uma visita simples fazem tanta diferença. Um beijinho grande*

  2. Sandra Pereira

    Estive com o meu desde os oito dias e praticamente um ano entre hospitais e duas cirurgias ,não é nada fácil! Ainda bem que temos bons profissionais para ajudar a superar estes momentos !

  3. Sílvia Silva

    Catarina são essas palavras e testemunho que muitos desconhecem que fazem com continuemos a fazer um bom trabalho e sempre com um sorriso apesar de condições adversas, falta de valorização e má remuneração. Eu, enfermeira, muito obrigada! Felicidades e muito amor família linda! Beijinho

  4. Maria Lídia Neves

    Vive essa mesma situação há uns 17 anos coma minha segunda filha…. não tenho 3, mas 2 raparigas lindas, com 23 e 17!!!! Para mim, têm pouco mais de 3/4 anos….!
    Foi num “célebre” carnaval, a seguir ao aniversário da mais velha que as “vidas” se complicaram….! Foram dias(15) de agonia e desespero…. até porque naquele ano já havia uns 10 ou 12 casos de morte de bebés por adenovírus…..e a minha bebé estava com um destes bichos maus….! Ufa!!! Foi terrível….! Não saí do hospital durante os primeiros 4 dias….. não comia….. não dormia….! Um sofrimento…..! Nem sempre as coisas correram bem…. houve avanços e retrocessos….! A equipa da pediatria do Hospital Pedro Hispano foi fantástica…..duma humanidade incrível…..! Temos profissionais excelentes….! E não é agora!!!! Há 17 anos já assim era….!
    Aqui vai o meu testemunho! Ahh! Nunca desistam!

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Isso mesmo 🙂
      E que bom que é saber que estamos bem “entregues”.
      Um beijinho para si e para as suas “crianças” 😉

  5. Catarina oliveira

    Tive duas gêmeas ,uma nasceu perfeitamente saudável,mas a outra, infelizmente nasceu com um tomor na cabeça na altura já com dez centímetros …Esteve os seis meses internado e ao fim de muitos exames feitos descobriram outro tomor no joelho direito…Ao fim de um ano entrou em coma cerebral e deixou de reagir a fatores exteriores…Perdi toda a esperança tanto de vida própria como da vida da minha filha,mas nunca deixei de lugar e ao fim de 4meses queriam desligar as máquinas,mas eu tinha um filling que a minha filha ouvia o que lhe dizia,e por isso apelido aos médicos e eles atrasaram o desligamento das máquinas…Falava com ela todos os dias ,revoltei-me com Deus por deixar um anjinho daqueles morrer,mas um dia ,ao tocar-lhe na mão ela apertou muito levemente o meu dedo…Foi a melhor prova que tive na vida…acordou da paralisia cerebral…Agora mobiliza-se atravês de uma cadeira de rodas e não reage nem fala nada,mas ao menos tenho-me viva…e identifico-me consigo,pois ao fim de três anos consecutivos no hospital ganhei pavor a esse sítio,pois lá vivi o momento mais triste e mais feliz da minha vida…

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