7 da tarde e ainda não lavei os dentes

A cábula das coisas proibidas

Ilustração da fantástica Patrícia Furtado

Era uma vez uma miúda, nem gorda nem magra, nem alta nem baixa, que fazia ginástica. Essa miúda adorava fazer a roda à beira-mar e o pino na parede – e ficar com as pontas do cabelo a varrer o chão.

Essa miúda tinha asma e houve um período largo da sua infância em que teve de tomar corticoides.

A miúda, que não era nem alta nem baixa, ficou gordinha. Bem gordinha. E a partir dessa altura nunca mais voltou a ser “nem gorda nem magra”. Era “a gorda”, como lhe chamavam muitas vezes na escola – e algumas vezes em casa.

Um dia, tinha uns 9 anos, os pais levaram-na ao pediatra e ele escreveu num papel todos os alimentos que essa menina não podia comer, incluindo gelados, batatas fritas e chocolates.

A miúda ficou a olhar para o papel porque raramente comia essas coisas, com excepção dos gelados, na altura do verão. Mas guardou-o religiosamente e andava sempre – sempre! – com ele no bolso. Na dúvida, ia espreitar a cábula. De vez em quando, copiava as palavras para um papel novo, para ter a certeza de que elas nunca iriam desaparecer.

Já as sabia de cor há muito tempo quando decidiu amarrotar o papel e deitá-lo fora.

Essa miúda era eu.

(continua…)

9 comentários em “A cábula das coisas proibidas

  1. Joana Sá

    Meu Deus Catarina até chorei com este depoimento 🙁 Entendo tão bem e num outro post seu já lhe expliquei que eu também sinto o mesmo, nunca tomei corticoides nem nada dessas coisas mas a minha familia direita (pais avós maternos e paternos) são tudo pessoas fortes e eu herdei isso deles, também sou forte, todos na família me apelidavam de gorda, todos na escola me tratavam assim e ainda hoje á pessoas a tratar-me, tento dietas, tento não comer de nada que me faça engordar e continuo na mesma, não tenho possibilidades de ir para um ginásio porque prefiro ter a minha filha na natação, sou feliz sim muito mas há alturas em que nem me apetece ir sair porque nem sei que vestir, á alturas em que ir á praia é um filme e fotos? fotos nem vê-las…
    Entendo muuuuito bem.
    Um beijinho grande pela mulher que é 😀

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Joana, obrigada pela partilha.
      Uma das razões pelas quais decidi criar o blogue foi a possibilidade de partilhar vivências que são minhas mas que sei – ou desconfio – que são comuns a muitas pessoas. Acho que nessa partilha há algo de muito muito bom 🙂
      Beijinho!

  2. Carla Alexandra Soares

    Querida Catarina, sabes que sigo o vosso trabalho religiosamente, poucas vezes comento aqui porque aptece me tanto escrever escrever e escrever. Antes das palavras escritas eu já sentia que as tinhas vivido. Tanto me identifico. Escrito por ti, sinto mesmo na alma, relembra me o passado e muito o meu presente. Com a doença 30/40 kg e comeres como um pisco. (Desabafo)
    Obrigada por seres como és ❤️

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Carla, quando temos esta “tendência” para ganharmos peso, temos de ter ainda mais força de vontade. E pensar naquilo que queremos para a nossa vida. Eu quero perder algum peso e estou a fazer por isso 🙂

  3. Filipa Carvalho

    Catarina, sempre me lembro de ser gordinha.
    Também tomei corticoides e cortizona. Não sei se isso teve alguma influencia, mas penso que até nem tenha nada a ver.
    Mãe, irmãs, tios, avós, tudo malta gordinha!
    Nunca fui vitima de bullying na escola, nunca me senti discriminada por isso, nem mesmo a nivel amoroso…..até há um ano atrás, quando uma medica de família, sem nunca me ter visto na vida, sem fazer ideia do meu historial, me julgou na hora, como se eu fosse um alarve que comia 3 pacotes de batatas fritas ao pequeno almoço, ou quem sabe um porco no espeto!
    Depois disso, tive exactamente a mesma reacção de uma dietista, que ao entrar no consultório, já tinha um papelinho escrito com tudo o que eu podia ou não podia comer. Nem houve a preocupação de me perguntar quais eram os meus hábitos. Alem do papelinho um discurso pré definido “Tem de ir para o ginásio imediatamente, caso contrario não irá perder peso!!” (eu fui para lá encaminhada da consulta de auto-imunes, tenho vários problemas de coluna e no máximo, só posso fazer hidroginástica, mas aquela best@, nem se deu ao trabalho de ler isso na minha ficha).
    Acho muito triste e grave, que profissionais de saúde, partam do principio que uma pessoa gorda , não sabe comer.
    Considero que tenho uma alimentação bastante saudável e cuidada, não tenho colesterol elevado, não tenho triglicéridos elevados, não tenho diabetes, não tenho tensão alta.
    Posso ser gorda e ser feliz?
    Ou devem os gordos ser queimados na fogueira?

    🙂 Beijinho

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Filipa, o teu comentário é muito interessante porque tu pareces viver muito bem com o corpo que tens. E ainda bem 🙂 eu já não posso dizer o mesmo…
      E essa médica devia ser posta no lugar!

      1. Filipa Carvalho

        🙂 Se gostava de ter menos 20kg, ah pois claro que gostava!! Mas tb gostava de ter umas maminhas maiores e não tenho…
        Faz-se o que se pode e consegue…se lá conseguir chegar, óptimo, se não, haja saúde que é o mais importante….de resto tb prezo muito a minha saúde mental e recuso-me a viver amargurada por não conseguir ter um “corpitxo turbinado”!! Ahah
        Beijinhos Catarina!

  4. Ângela Aguiar Moniz

    Também me revejo naquilo que escreveu…Também fui a miúda gorda, também me chamavam de gorda na escola e afins e atualmente ainda há quem me venha advertir de que uma dieta era boa!
    Tentei sempre muitas dietas e houve inclusive uma altura que perdi muito peso mas estava doente…fiquei boa e devagar o meu corpo voltou ao mesmo!
    Depois são os médicos todos com o mesmo – o papelinho mágico daquilo que se deve comer ou não e os avisos do “Nada de Doces” e eu penso mas eu não sou disso! Até os cozidos são os meus pratos preferidos…mas enfim há que lidar com isso!

  5. Cláudia

    Você é tão gira Catarina! Adorei a sua honestidade e a sua simplicidade! Por um mundo mais justo e mais verdadeiro, mais mulheres deveram assumir-se como Mulheres a Sério, ao invés de barbizinhas anorécticas e produzidas em modo de gala, que vivem para provocar o sexo oposto, sem respeito nenhum pela sua condição. Mulher Perfeita não existe! Não é real e nem possível! Mas infelizmente vivemos numa época que enaltece a mulher objecto. Sou mãe de 2 rapazes, sem pretensões a supermodel, completamente despojada do acessório e cada vez mais adepta do essencial! Um Grande Bem Haja e Felicidades para o seu blog! Tenho a certeza que vai ser um grande sucesso! Voltarei! 😉

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