7 da tarde e ainda não lavei os dentes

A menina que nunca devia ter nascido (desta forma)

Mas nasceu e esta é a sua história.

Assim que começamos a conversar, “Joana” – vamos chamar-lhe assim – deixa escapar um sorriso nervoso e há um brilho que toma conta do seu olhar.

Ao nosso lado está a técnica que acompanhou o seu percurso na Associação Humanidades. Isso deixa-a mais tranquila e ela começa a falar dos últimos cinco anos da sua vida. Vai olhando para a técnica – talvez para ganhar confiança – e tem uma doçura na voz que é própria dos seus 20 anos, mas que contrasta com o seu passado recente.

Tinha apenas 15 anos quando entrou para uma instituição porque “lá em casa as coisas estavam complicadas” e o pai tinha sido preso. Estava grávida mas tentou esconder. “Vestia roupas muito largas para ninguém reparar”, revela, acrescentando logo de seguida que “descobriram e eu tive de sair”. Foi assim que chegou à Humanidades, grávida de 27 semanas e assustada com tudo na vida.

“O que é que eu vou fazer agora? Era sempre nisto que eu pensava”. Nos primeiros tempos confessa que lhe passou de tudo pela cabeça. “Pensava em dar o bebé para adopção e logo a seguir pensava em tê-lo”. Semanas de um turbilhão de sentimentos que só conheceram algum sossego “porque estava aqui, na associação”. O apoio das técnicas foi fundamental. “Senti, aos poucos, que esta era a minha casa e que queria ter o bebé”.

Mas havia outro ponto a trabalhar: Joana não falava do pai do bebé, dizia que não sabia quem era. As técnicas decidiram dar-lhe tempo para ela ganhar confiança para falar acerca disso.

Entretanto nasceu “Mayara”. Uma menina “linda e cheia de cabelo” que, no dia da alta do hospital, regressou com a mãe à Associação Humanidades. “Foi como regressar a casa, toda a gente me acolheu e me ajudou a cuidar dela. Ensinaram-me o que eu precisava de saber”.

Joana fez um plano de acção para perceber qual era o seu sonho e o que eu precisava de fazer para o conseguir. “Escrevi que era tirar a carta de condução e arranjar um part-time, porque tinha a Mayara muito pequenina na altura”.

Enquanto a bebé ficava na creche da associação, Joana conseguia trabalhar para alcançar os seus objectivos. Mas foi justamente quando estava focada no futuro, que o passado decidiu pregar-lhe uma partida.

Numa saída, o pai conseguiu perceber onde estava, levou-a para casa e bateu-lhe. “Pediu ao meu irmão para tomar conta da bebé e espancou-me”. Quando regressou à associação, foi levada ao hospital e a partir desse momento desencadeou-se uma queixa contra o pai e o caso foi encaminhado para tribunal.

A confiança nas técnicas e o apoio incondicional do namorado, que continua ao lado de Joana, levaram-na a ganhar coragem para confessar aquilo que sempre soube e nunca quis partilhar: “o pai da Mayara é o meu pai”.

A partir deste momento não havia como voltar atrás. Levar o pai a tribunal passou a ser claro na sua cabeça – e na das técnicas que a acompanharam. “Foi muito difícil avançar com o processo em tribunal, porque tive de contar muitas vezes a mesma história. Foi muito duro”.

O pai de Joana foi julgado por violência doméstica, por violação e por abuso de menores, entre outros crimes. E ela viu a sua vida dar uma volta de 180 graus, colocando-a perante um presente – e um futuro – bem mais promissor.

“Se não fosse a associação eu estaria aí para um canto a fazer muita porcaria, tenho a certeza!”, conclui.

(continua na semana que vem – e vão gostar de ler o resto da história da Joana!)

4 comentários em “A menina que nunca devia ter nascido (desta forma)

  1. Bárbara (Le É A BIDA)

    “Foi muito difícil avançar com o processo em tribunal, porque tive de contar muitas vezes a mesma história. Foi muito duro”. Fico super triste quando ouço estas coisas, o nosso sistema de justiça é incapaz de proteger uma pessoa que sofreu assim porquê? Querem fazer justiça para si e para os outros e têm que passar horrores porque o nosso sistema não protege as pessoas…

  2. Isabel lopes

    E as lágrimas saltam dos meus olhos… que difícil! Quantas meninas/mulheres vivem situações semelhantes e não encontram o apoio suficiente para ter um futuro com futuro? Quanta inquietação! E afinal é possível transformar o impossível em possível! Espero, desejo, quero!

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