7 da tarde e ainda não lavei os dentes


“Catarina, preciso da tua biografia”

– Da minha biografia? Então mas agora tenho de falar de mim?

Bloqueei. Eu, que tenho sempre tanta coisa a dizer ao mundo, bloqueei. É que não há nada mais difícil para quem se habituou a ser mãe, mulher, filha, irmã, amiga – entre tantas outras coisas ao mesmo tempo – do que encontrar-se aqui pelo meio.

Nessa tentativa – a de me encontrar – dou por mim em 1994, com Dr. Martens nos pés e caracóis no cabelo, sentada no chão do meu quarto a segurar um CD laranja com um urso na capa. Enquanto as minhas colegas vibravam com os hits dos Ace of Base, eu estava viciada em “What’s The Frequency, Kenneth?” Em “I don’t sleep I dream”. Nos R.E.M. Na voz – e nos olhos – do Michael Stipe.

Nesse ano, a miúda de quem os rapazes eram sempre – e só – amigos suspirou ao ver “Reality Bites”, cantarolou “My Sharona” vezes sem conta e desejou ser a Winona Ryder. No ano seguinte, suspirou mais uma vez ao ver “Before Sunrise”, cantarolou “Come Here” vezes sem conta e desejou, desta vez, ser a Julie Delpy. E nunca mais parou de suspirar, tantas e tantas vezes, perante uma boa história de amor – e uma qualquer personagem do Ethan Hawke.

Sempre agarrada ao papel e à caneta, rascunhava coisas que me iam na alma e que mais tarde, ao reler, achava ridículas. Lixo. Nessa altura, a minha autoestima era do tamanho de uma ervilha… anã. Vestia-me como o pessoal “grunge” porque me identificava com o estilo de música, mas sobretudo porque me permitia usar as roupas mais largueironas.

Fui para humanidades por exclusão de partes. Não gostava de ciências, nem de economia e o meu jeito para artes era zero. Gostei muito. Acabei na Escola Secundária Rainha Dona Leonor e adorava a minha turma. No final do 12º escolhi ir para a Escola Superior de Comunicação Social, para Jornalismo. Acabei o curso com boas notas e com um namorado que se tornou o homem da minha vida. Estou com ele há mais de 18 anos – pausa para me gabarem a paciência – e amo-o profundamente… a maior parte do tempo.

Trabalhei em jornais diários e percebi que o dia-a-dia era demasiado efémero. Mal tinha acabado o texto e já era de ontem. Mudei. Comecei a trabalhar em televisão. Adorava contar histórias e escolher as músicas certas para essas histórias. Mais tarde saí da televisão. Regressei e voltei a sair até encontrar na organização de eventos – na preparação dos dias felizes dos outros – o tal trabalho que nem parece trabalho.

Há seis anos e meio, no dia mais quente de que me recordo, tive a Maria Rita. E nasceu em mim, ao mesmo tempo, uma coisa chamada medo. Mas não é medo de cobras, que tenho desde miúda. É medo a sério, como nunca tinha sentido. Medo que aconteça alguma coisa a esta miúda que é a minha filha. Que fique doente. Que tenha sonhos maus. Que se sinta triste. Que eu não esteja lá para ela.

Um medo que – bem ao jeito kamikaze – decidi multiplicar por três com a chegada da Maria Inês e, mais tarde, da Maria Leonor. Três miúdas que eu vou abraçar e sufocar com beijos até à adolescência. Altura em que elas não vão querer saber de mim e eu não vou importar-me porque estarei a viajar mundo fora com o pai delas. Ou talvez me encontrem sentada num cadeirão, no meu quarto, de pantufas nos pés e uma cor gira no cabelo, a ouvir o CD laranja com um urso na capa.